Aluísio Alves
Out/2015
No
Brasil, “segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos, 70% das violações de
direitos das crianças e adolescentes são cometidas por algum familiar. O número
traz, além de casos de violência, registros de discriminação, trabalho infantil
e negligência. Outro levantamento mostra que metade dos atendimentos realizados
por conselhos tutelares têm os pais como autores da violação dos direitos… o uso da violência por familiares
como forma de impor a autoridade ainda é culturalmente aceitável. Muitos
adultos não consideram esses tipos de punições como ‘violência’. Outras formas
de violência contra criança como castigos físicos, ameaças e xingamentos no
ambiente doméstico têm entre as consequências a reprodução do ciclo da
violência”(Juliana Sada).
Por
estas informações, fica claro que a maioria das violências cometidas contra
crianças e adolescentes, no Brasil, são
praticadas nos ambientes domésticos pelos pais ou outros que deveriam zelar
pela integridade das novas gerações.
A reflexão que se faz necessária deve
incluir o conhecimento de que as marcas da violência, em muitos casos, ficam mais
profundamente indeléveis no campo emocional, gerando empecilhos para o pleno
desenvolvimento de pessoas que poderiam gozar de mais plenitude, motivação e
autoestima. Este pensar sobre a ampliação de uma cultura de paz e não-violência
é uma tarefa importante dos pais, independemente da configuração familiar em
que tenham sido criados ou da que estão vivenciando neste momento de suas
vidas.
Claro está que pais são filhos e
essa condição imutável traz outro movimento fundamental: a elaboração da
própria história de suas relações com seus genitores visto que, conforme foi
mencionado no início deste texto, quem sofre violências na infância, pode, sem
ter consciência disso, estar reproduzindo o ciclo da violência…por isso, a
proposta aqui é de refletir, autoconhecer-se, trazer à luz o tipo de
relacionamento que foi estabelecido com os pais durante a infância e a adolescência.
Particularmente, nos atendimentos
que ofereço com a abordagem sistêmica, tenho encontrado com impressionante
frequência, adultos que tem imensa dificuldade em honrar seus pais, tomá-los
integralmente em sua alma. Mesmo tendo pleno conhecimento de que essa honra
deve-se essencialmente ao fato de que o papai e a mamãe são os canais da vida
para os filhos, isso não tem sido suficiente para que filhos adultos façam o
movimento de reverência em direção a um dos ou aos seus pais biológicos. Qual
seria o principal motivo?
Alice Miller, em seu valioso livro A revolta do corpo, a partir da sua
própria vivência e do estudo de muitos casos, comprovou sobejamente que,
universalmente, “A tradição do sacrifício de crianças está profundamente ancorada na
maioria das culturas e religiões, por essa razão, também é afirmada e tolerada
com grande naturalidade em nossa cultura ocidental. Embora já não sacrifiquemos
nossos filhos no altar de Deus, nós os encarregamos, desde que nascem e, mais
tarde, ao longo de toda a educação, de nos amar, honrar, respeitar, de
contribuir conosco, de satisfazer nossa ambição, resumindo, de nos dar tudo o
que nossos pais nos recusaram. Chamamos isso de decência e moral. Raramente a
criança tem escolha. Diante dessas circunstâncias, ela vai se obrigar, a vida
toda a oferecer aos pais algo de que ela não dispõe e que não conhece, porque nunca
experienciou neles: amor real, incondicional, que não satisfaça apenas as
necessidades.
Com este fragmento viso a
sensibilização para a atenção que os pais, biológicos e adotivos devem ter em
relação às experiências individuais que
tiveram com sua família, durante sua infância e adolescência.
Um dos dificultadores de uma
incondicional amorosidade com os pais situa-se no nível da memoria corporal, ou
seja, mesmo que os princípios morais de um grupo tentem impor a honra aos pais,
há algo mais forte que trava ou impede esse movimento: as impressões das violências físicas e psicológicas praticadas
pelos pais no ambiente familiar.
Concluindo, o ciclo da violência
avança para além dos limites das famílias e espalha-se por toda a sociedade,
gerando fortemente, no nível pessoal grandes sofrimentos armazenados e
zelosamente arquivados no corpo, constituindo-se em barreira quase
intransponível para que filhos possam honrar seus pais, mesmo, como já foi dito,
que intelectualmente isso seja aceito. Há algo mais forte que interrompe o
movimento de amor de filhos para pais.
Fica nosso desafio de, a partir de
nossas famílias, seja qual for sua arquitetura, ampliar a cultura da paz e da
não-violência.

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