sexta-feira, 9 de outubro de 2015

PELA AMPLIAÇÃO DE UMA CULTURA DE PAZ E NÃO-VIOLÊNCIA



                                                                                                   Aluísio Alves
                                                                                                      Out/2015


          No Brasil, “segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos, 70% das violações de direitos das crianças e adolescentes são cometidas por algum familiar. O número traz, além de casos de violência, registros de discriminação, trabalho infantil e negligência. Outro levantamento mostra que metade dos atendimentos realizados por conselhos tutelares têm os pais como autores da violação dos direitos… o uso da violência por familiares como forma de impor a autoridade ainda é culturalmente aceitável. Muitos adultos não consideram esses tipos de punições como ‘violência’. Outras formas de violência contra criança como castigos físicos, ameaças e xingamentos no ambiente doméstico têm entre as consequências a reprodução do ciclo da violência”(Juliana Sada).

          Por estas informações, fica claro que a maioria das violências cometidas contra crianças e adolescentes, no Brasil,  são praticadas nos ambientes domésticos pelos pais ou outros que deveriam zelar pela integridade das novas gerações.

          A reflexão que se faz necessária deve incluir o conhecimento de que as marcas da violência, em muitos casos, ficam mais profundamente indeléveis no campo emocional, gerando empecilhos para o pleno desenvolvimento de pessoas que poderiam gozar de mais plenitude, motivação e autoestima. Este pensar sobre a ampliação de uma cultura de paz e não-violência é uma tarefa importante dos pais, independemente da configuração familiar em que tenham sido criados ou da que estão vivenciando neste momento de suas vidas.

            Claro está que pais são filhos e essa condição imutável traz outro movimento fundamental: a elaboração da própria história de suas relações com seus genitores visto que, conforme foi mencionado no início deste texto, quem sofre violências na infância, pode, sem ter consciência disso, estar reproduzindo o ciclo da violência…por isso, a proposta aqui é de refletir, autoconhecer-se, trazer à luz o tipo de relacionamento que foi estabelecido com os pais durante a infância e a adolescência.

            Particularmente, nos atendimentos que ofereço com a abordagem sistêmica, tenho encontrado com impressionante frequência, adultos que tem imensa dificuldade em honrar seus pais, tomá-los integralmente em sua alma. Mesmo tendo pleno conhecimento de que essa honra deve-se essencialmente ao fato de que o papai e a mamãe são os canais da vida para os filhos, isso não tem sido suficiente para que filhos adultos façam o movimento de reverência em direção a um dos ou aos seus pais biológicos. Qual seria o principal motivo?

            Alice Miller, em seu valioso livro A revolta do corpo, a partir da sua própria vivência e do estudo de muitos casos, comprovou sobejamente que, universalmente,  “A tradição do sacrifício de crianças está profundamente ancorada na maioria das culturas e religiões, por essa razão, também é afirmada e tolerada com grande naturalidade em nossa cultura ocidental. Embora já não sacrifiquemos nossos filhos no altar de Deus, nós os encarregamos, desde que nascem e, mais tarde, ao longo de toda a educação, de nos amar, honrar, respeitar, de contribuir conosco, de satisfazer nossa ambição, resumindo, de nos dar tudo o que nossos pais nos recusaram. Chamamos isso de decência e moral. Raramente a criança tem escolha. Diante dessas circunstâncias, ela vai se obrigar, a vida toda a oferecer aos pais algo de que ela não dispõe e que não conhece, porque nunca experienciou neles: amor real, incondicional, que não satisfaça apenas as necessidades.

            Com este fragmento viso a sensibilização para a atenção que os pais, biológicos e adotivos devem ter em relação às experiências  individuais que tiveram com sua família, durante sua infância e adolescência.

            Um dos dificultadores de uma incondicional amorosidade com os pais situa-se no nível da memoria corporal, ou seja, mesmo que os princípios morais de um grupo tentem impor a honra aos pais, há algo mais forte que trava ou impede esse movimento: as impressões  das violências físicas e psicológicas praticadas pelos pais no ambiente familiar.

            Concluindo, o ciclo da violência avança para além dos limites das famílias e espalha-se por toda a sociedade, gerando fortemente, no nível pessoal grandes sofrimentos armazenados e zelosamente arquivados no corpo, constituindo-se em barreira quase intransponível para que filhos possam honrar seus pais, mesmo, como já foi dito, que intelectualmente isso seja aceito. Há algo mais forte que interrompe o movimento de amor de filhos para pais.

            Fica nosso desafio de, a partir de nossas famílias, seja qual for sua arquitetura, ampliar a cultura da paz e da não-violência.



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