Centro de São Paulo, manhã calma e fria, entro no trem e tomo lugar ao lado de uma jovem senhora, que, em poucos segundos, me perguntou:
- O que você faz? Onde trabalha?
- Sou vendedor de Sonhos! - respondi com naturalidade.
- É… - comentou a passageira - neste país se vende de tudo, é baú da felicidade, agora, vendendo sonhos…Mas, tem alguém que se interessa?
- Sim, muitas pessoas adoram e compram muito. Vivo disso!, reforcei.
- É sério isso? - interessou-se a mulher.
- Claro - respondi me divertindo muito - ou a senhora nunca entrou em uma confeitaria?
- Ah!, sonhos… - riu a curiosa e bem humorada vizinha - nem pensei nisso. Tudo bem!
A pequena viagem termina para mim, despeço-me da transitória companheira e desço na estação do meu destino.
O que estamos fazendo de nossas vidas e da Vida, em geral, é fatiando-a freneticamente, cada vez mais em menores porções e guardando tudo em caixinhas. É um hábito nosso.
Via de regra, além de iniciar conversas pelo que é trivial, o que é perfeitamente adequado para estabelecer os primeiros contatos, é revelado, se olhado para a sutileza dos movimentos e das falas, que querer saber a qual religião o outro pertence, qual profissão, em qual região do país ou da cidade mora…somado tudo isso à fria percepção da aparência física do outro, tem-se aí um pequeno conjunto de informações "suficientes" para colocar aquela pessoa em uma das caixinhas que criamos ou que tomamos de graça da superficialidade da vida…
Quando separamos as pessoas em categorias, sejam quais forem, reduzimos a grandiosidade de cada uma e, consequentemente, tornamos a Vida pequena, apertada e fragmentada demais.
Esse hábito de tentar prender a vida em caixinhas é seguido, inexoravelmente, pelo movimento interno de classificar se é bom, se faz parte do que julgamos correto, aceito, importante, desprezível e por aí vai… é um hábito mecânico de criar critérios para, com eles em punho, excluir pessoas ou incluir, quando passam pelo nosso rígido crivo. Isso tudo fica subterraneamente camuflado, mas, quando olhamos com honestidade para nosso mundo interno, é uma percepção que salta aos olhos de nossas almas!
Excluímos muita gente: as que não acreditam no mesmo que acreditamos, as que não se vestem da forma que não nos agradam, as que torcem por times e partidos políticos diferentes do nosso, as que tem comportamentos "errados" em lugar dos nossos, que, "obviamente", são os corretos, as que não gostam de nós, as que não percebem a "nossa importância", as que não usam o perfume que "entendemos" que seja "melhor" para elas…e isso se segue numa lista lamentavelmente crescente…
Bem, você que está comigo até agora "agarrado" neste pequeno texto, já percebeu que estamos viajando, estamos numa jornada cujo final será determinado quando algo nos mover internamente para descer na próxima estação…e meu convite é para que esvaziemos nossas caixinhas, reciclemos todas no fogo da mudança profunda de nossa consciência e sigamos juntos, incluindo a todos, por mais que causem desconforto inicial e, que tomemos a Vida em sua grandeza que, generosamente, inclui você e eu nesse movimento maravilhoso de estar e poder viajar no mundo por algum tempo...

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