Em
tempos de terceirização de serviços neste mundo chamado globalizado, curiosamente, pouco se fala nas
transferências dos nossos processos pessoais que fazemos ou tentamos fazer para
o outro. O outro é quase sempre o culpado ou responsável pelo nosso estado
mental ou de alma. O outro também é apontado de
“forma positiva” quando a ele
atribuímos a fonte da nossa felicidade, lançando sobre esse outro uma
expectativa de realização plena. Em qualquer dos casos em que fazemos um
movimento de “terceirizar” nossa felicidade ou de responsabilizar alguém pelos
nossos insucessos, uma coisa é certa: a existência do outro é fundamental para
nossa própria existência.
Vamos,
então, ver um pouco da importância da alteridade, da relação com o outro para a
construção da nossa consciência existencial. Somente nos sentimos vivos pela
percepção que temos do outro, do nosso semelhante (embora, paradoxalmente, seja
também tão diferente de nós). Se
fecharmos nossa sensibilidade, nossa capacidade de sentir o outro,
estranhamente iniciamos em nós mesmos um incômodo processo de demolição da
nossa existência. Isso, na maioria das vezes, é
lento e quase imperceptível (ou algo a respeito do qual não “queremos”
nos dar conta). E nessa batalha para negar a existência do outro (um processo
que negamos, visando nos sentir “bem na fita”), estamos, sim, eufemizando uma
espécie de autoextermínio! O movimento oposto é verdadeiro, claro! Trazer o
outro à existência é salvar nossas próprias vidas. Quanto mais criamos laços
saudáveis de relacionamentos (independentemente do nível dessas relações),
tanto mais nos damos vida, muita vida. O outro, portanto, terá o papel que
definirmos para ele: se lhe atribuirmos um papel de culpado por nossas
fraquezas e fracassos, esse outro seguirá exatamente tal script; se delegarmos
ao outro a responsabilidade de “nos fazer felizes”, ele representará esse
roteiro (até que “falhe” em algum trecho da representação e seja reduzido ao
papel mencionado antes: o de culpado pela nossa infelicidade!).
O outro “segue”
o roteiro que traçamos – que isso seja bem claro para você e eu – na nossa
fértil imaginação, porque na realidade o outro (qualquer outro) está
completamente descredenciado para seguir o que nós planejamos para ele...
Assim,
fica para nós uma imperiosa tarefa para ser iniciada agora, a de rever com
discernimento o “como” nos relacionamos com parceiros, parentes, amigos,
colegas de trabalhos, filhos, desafetos,
os desconhecidos que cruzam nosso caminho na rua, as pessoas que nos atendem em
variadas situações...em todos eles e em outros mais está o outro... e o parâmetro
do que estabelecemos nas relações com esse outro reflete a exatidão da dimensão
que damos às nossas vidas: estreitos labirintos de lamentações e queixas a
respeito da nossa existência ou largos
horizontes de possibilidades de realizações e buscas sem a temerável
necessidade de “terceirizar” aquilo que nos pertence ou nos cabe realizar!

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