Viver numa cultura marcada pela excessiva racionalidade tem seus efeitos colaterais...
Um deles é a gaiola do condicionamento na qual nos metemos ao querer saber o motivo de tudo o que fazemos, do que os outros fazem ou deixam de fazer...procurar motivos ou os porquês das coisas é quase uma paranóia coletiva.
A vida segue e muitos de nós ficamos perdidos ao longo do Caminho à procura do motivo para viver... aprendi que saber, sob muitos aspectos, em nada nos ajuda. É preciso, para ter paz interior, voluntariamente nos colocar de acordo com a realidade (Bert Hellinger nos ensina isso!).
Aos que procuram vorazmente o motivo disso ou daquilo, tenho uma pequena história para contar:
Um Beija-flor, assim que viu suas penas crescerem, suas asas ficarem hábeis para realizar pequenos voos e sugar um pouco de néctar nas flores mais próximas do seu ninho, virou-se docemente para sua mãe que, diligentemente havia tecido o ninho com delicados materiais e, até então buscado alimentos várias vezes por dia para ele, e perguntou:
- Mamãe, qual é o motivo de tanto cuidado comigo?
- Que pergunta! - pensou rapidamente a mãe Beija-flor - Ah, filho, se eu soubesse que iria me perguntar isso, teria perguntado à sua vovó... mas, recebi o mesmo cuidado dela e sei que sua avozinha também foi muito bem cuidada pela mãe dela...
- Qual é o motivo de nossa família ter esse cuidado, mamãe? - insistiu o filhote de Beija-flor.
- Proponho uma coisa a você, filho: enquanto você continua treinando seus voos, vá se perguntando o motivo de aprender a voar, talvez, assim, descubra a resposta para outros motivos...o que acha?
- Combinado - topou o rápido Beija-flor e lá se foi a treinar seus voos razantes e sua habilidade de adejar em frente as flores... perguntando-se acerca do motivo de fazer todos aqueles exercícios.
Com o passar dos dias, o jovem Beija-flor começou a perceber que havia algo que o impulsionava a ser quem era e a fazer o que fazia; mais ainda: percebia que tudo aquilo que fazia e a vida de Beija-flor era muito boa. Era tudo muito bom mesmo sem saber o motivo...
Então, para nós humanos, fica algo semelhante: viver é bom e isso basta, mesmo que não encontremos a explicação, o motivo para nosso ser e estar no mundo, uma realidade tão mutável quanto a direção do voo do Beija-flor...
Saber o motivo torna-se pouco relevante se, igual ao filhote de Beija-flor, percebermos que algo maior nos impulsiona e nos leva a experimentar a vida em todas as suas nuances e sabores, ritmos e tons...
Aos que, como eu era, procuram "O Motivo", sugiro que soltem as rédeas e desistam de controlar com a mente racional aquilo que está em outra região da existência e com simplicidade voluntária vivam cada dia com gratidão e reverência...afinal, o motivo não se deixa apreender por nossa razão, mas move com força ancestral tudo aquilo que convive nesse grande jardim chamado Vida!

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